Não por muito esforço
Sábado, Novembro 17, 2007
Você espreme meio substantivo e o enquadra sob locução adverbial, separando-a por vírgula como se lidasse com um vocativo. Ao final, respira fundo e descansa. Repassa em pensamento o enorme trabalho que teve, todos os casos de leitura interpretativa devidamente pensados; tem em mãos um efeito bárbaro e dizimador, então sente que é a hora de descansar. Não por muito tempo. Ao menos só até que um professor de redação o achincalhe como burocrata de um estado totalitarista e lhe diga que não tem licença para tal acinte lingüístico: és um desprovido de penas mágicas, dos pensamentos retorcidos e nebulosos. Tens somente idéias quadradinhas e encaixáveis entre si, formato propício também a que se as empilhe para nunca mais serem encontradas. Não és como um autor conhecido, desses conhecidos que se conhece bastante, desses que por vezes desembainham sua reluzente licença poética em nome de uma luta amarga, a resistência do pensar. Ruminas, ruminas já sem tempo a grama verde-amarela e precisas lucupletar-te dela antes que possas sonhar com qualquer grandiosidade que torne possível menear substantivos em advérbios e escrever idéias suficientemente espertas para que não veja ninguém ali uma afronta aos nossos conhecidos.


