Uma menina

Segunda-feira, Novembro 12, 2007

I

Morava ali na casa ao lado uma menina. Você talvez se pergunte por que uma menina merece ser mencionada, quando há por aí tantas meninas indistintas com laços e flores. Há sim um detalhezinho: essa menina não tolerava ser amada. Olhando de fora, nós, meros observadores, vemos que essa menina não só foi amada durante toda a sua vida como talvez ainda tenha muito, enormemente o que ser amada. Não, ela não anda sobre a ponta dos pés, não sorri provocando desarmamentos em almas pouco prevenidas, e provavelmente nunca morreu. Quem sabe ela não gosta da idéia de morrer algum dia, é algo em que venho pensando. As eternidades, pra ela, são congelantes e tomam de arrepios.

A casa ao lado é uma casa contígua, até onde podem as casas ser. Nasceu mais ou menos junto com todas as outras casas, e se orgulha de estar por vezes tão próxima que podemos alcançá-la ao esticar os braços; mas o mais comum é mesmo que tenhamos que correr um pouquinho e dêem-nos alguns minutos. Toda a região tinha um nome de floresta, dessas que hoje se pode ver muito em todo canto com suas árvores iguaizinhas e regularmente espaçadas para que ali não se viva, mas seja possível passar e recolher todo o desejado. Não é assim que são nossas florestas?

Pois nos íamos esquecendo da menina. Hoje, hoje ela está triste. Sempre poderemos argumentar que em geral as pessoas são o que são criadas para que sejam, e no caso da menina é um argumento que soa estranho. Ela olha com desdém a parede branca e imagina uma porta de vidro. Uma grande porta que cobre toda a extensão de parede e ainda mais, é só uma marca a transpor. Por que é que fariam portas de vidro se não fosse pra atravessá-las, ela pensa às vezes, e percebe que são necessárias por outros motivos também. Sorri. Sorri levemente e a parede continua impassível, silenciosa como em geral são as paredes. Ao contrário do senso comum, as paredes não têm ouvidos, muito menos são capazes de falar. E às vezes, muito raramente, vêem. Mas são paredes, e nada podem fazer com o que vêem senão continuar vendo. Um sorriso tão tênue é visto, e a impressão que a menina tem nas suas impressões de menina é de que a parede gostaria de sorrir de volta. Mas são tão poucas as paredes que têm sentimentos! Ah, se ao menos ela soubesse. Mas por que nos detemos tão demoradamente em um sorriso tão rápido? É simples. Um sorriso ligeiro esconde as alegrias perturbadoras. Estremeço um pouco ao imaginar em que espécie de perturbações não estaria a menina pensando. Ela provavelmente vê uma beleza comum na maioria das coisas em que nós vemos belezas extraordinárias, porque nossa menina tem também uma percepção mergulhadora. O que o suspiro seguinte escondeu, não conseguimos vislumbrar, mesmo com tanto tempo como temos agora.

Dona menina se levanta, e é melhor que a acompanhemos. Precisamos ser rápidos: num só movimento ela já está descendo as escadas e não vemos pernas nem pés nem nuvens. Ela quase flutua. Como é que as pessoas flutuam quando estão tristes, você pode estar com uma pulga orelhuda, afinal o que é comum é que as pessoas flutuem em sua própria alegria. Ah, as tristezas imitam tantos sentimentos. Imitam as alegrias quando você sorri triste, imitam o tédio quando há uma expressão impassível de parede (aqui as paredes têm sentimentos) e imitam até a dor, ao chorarmos lágrimas tão salgadas que têm cheiro de praia. Pois vemos cabelos descendo a escada e no momento seguinte vemos narizes fechando portas e ganhando ruas tortas que vão dar sabe-se-lá onde.

II

Do lado verde da cidade subia uma névoa espessa tão especialmente densa que metáfora nenhuma seria capaz de descrevê-la com precisão. Era ali que morava um menino; você deve ter adivinhado que precisávamos de um menino ou de outra menina nessa história, não? Em todo caso, era mesmo um menino de sobrancelhas grossas e sorriso impensável.

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